• Dora Ghelman

Caminhos

Um dia desses, estava passeando com a Mia na rua.

Eu gosto de ficar reparando nas coisas a minha volta.

O som do vento.

Os gatos parados pegando um sol de olhos fechados.

O barulho que os macacos fazem no topo das árvores.

Sim, onde moro têm macacos em árvores.

Mas nesse dia, algo a mais me chamou a atenção.

Havia um beija-flor bebendo água nas plantas bem em cima de mim.

E por acaso — ou não — ele ficou me acompanhando durante quase todo o passeio.

Fiquei pensando que talvez fosse uma mensagem do universo.

Como pode um beija-flor seguir exatamente o mesmo caminho que eu?

É sinal.

É mensagem.

Comecei a refletir sobre qual mensagem o beija-flor poderia estar tentando me passar.

Ele é a única espécie de ave que consegue voar tanto para frente como para trás.

Sempre achei isso muito interessante.

Porque me faz pensar que não podemos andar só pra frente.

Não podemos esquecer de onde viemos.

Não podemos esquecer daqueles que vieram antes de nós.

O beija-flor consegue voltar.

Ele sabe o caminho por onde ele veio.

Ele escolhe ir e voltar.

Isso é poético, acho.

Né?

Fiquei pensando sobre os caminhos que me trouxeram até aqui.

Que me fizeram ser quem eu sou hoje.

Se não fossem meus familiares, será que eu seria a Dora de hoje?

Se não fossem as minhas amigas de escola?

Meus amigos que dividiam berço comigo?

As pessoas que encontrei e desencontrei ao longo da vida?

Cada briga? Risada? Decepção? Mágoa?

Cada perdão? Cada piada? Brincadeira?

Com certeza cada pessoa que cruzou o meu caminho o fez por algum motivo.

Ou elas tinham algo para aprender comigo, ou tinham algo para me ensinar.

E, com certeza, eu aprendi muito nessa vida.

Espero ter ensinado também.

Espero que as trocas possam ter sido tão significativas para as pessoas que cruzei, quanto foram para mim.

Porque, com certeza, foram.

Me peguei pensando nas pessoas que ocupam e ocuparam espaços na minha cabeça por conta dos caminhos que faço.

Nas idas e vindas do meu dia a dia.

No meu “ir para trás e para frente”, igual o beija-flor.

Quando eu morava com os meus pais, sempre havia um homem que ficava parado na frente do supermercado dia e noite.

Parado e segurando uma garrafa d’água.

Olhando para frente.

Sem fazer nada além disso.

E não importava a hora do dia que a gente passava por lá.

Ele sempre estava na mesma posição.

Me lembro de ficar tentando entender o que ele fazia lá parado, dia após dia.

Ficava imaginando os motivos.

Como.

Se não doía o braço ficar parado imóvel por tanto tempo.

Onde ele morava.

Se ele tinha família.

Até que me mudei e, consequentemente, parei de passar por ele.

Parei de pensar nele.

Parei de cruzar com ele, então parei de pensar nele.

O tempo passou e não pensei mais nele.

Até que, por acaso, cruzei com ele recentemente.

Ele estava andando pela ladeira, calmamente.

Estava passeando com dois cachorros.

Estava mais gordinho.

Estava rindo.

Usando a mesma regata de sempre e os mesmos óculos de armação grossa e lentes fundo de garrafa.

(Nisso devo acrescentar que sempre me identifiquei com ele. Óculos grossos e lentes fundo de garrafa é minha especialidade.)

Imediatamente lembrei dele e da pose de estátua que ele fazia na frente do supermercado.

E imediatamente percebi que não pensava nele há anos.

Me bateu uma tristeza enorme.

Poxa, como eu não havia pensado nele esse tempo todo?

Eu, que todos os dias passava por ele e refletia sobre.

Eu que vivia mirabolando sobre a vida dele.

Eu havia me esquecido dele.

Fiquei culpada.

Quantas pessoas haviam cruzado a minha vida dessa mesma forma e eu havia esquecido também?

Será que muitas?

Será que poucas?

E por que eu não conseguia me lembrar delas?

Será que elas não eram tão importantes assim?

Mas caramba, como não?

Eu pensei tantas vezes e por tanto tempo no homem do supermercado para esquecer dele assim?

Dessa forma?

Será que alguém já se esqueceu assim de mim?

Muito provavelmente.

Tem pessoas que cruzam as nossas vidas de forma superficial mesmo.

E tudo bem.

Né?

Isso não faz delas menos importantes.

Só menos importantes para mim, nesse caso.

Na minha vida.

Mas a minha vida não é “a” vida.

A minha vida não rege o mundo.

Não é só porque ele não foi importante na minha vida que ele não é importante.

Ele com certeza é importante para os cachorros que ele leva para passear todos os dias na ladeira.

Para a filha?

Irmão?

Sobrinhos?

Mãe?

Esposa?

Com certeza.

Fiquei me sentindo menos culpada depois dessa linha de pensamento.

Muitas pessoas vêm e vão.

Muitas passam despercebidas.

Ou deixam uma marca que vamos carregar para sempre.

É isso o que elas tinham para nos ensinar.

Para nos fazer pensar.

Talvez fosse esse o ensinamento do homem do supermercado.

Talvez eu precisasse me esquecer dele para lembrar depois.

Eu precisava cruzar com ele no passado para lembrar dele no agora.

E levar isso para o meu futuro.

Olhar para trás faz com que sejamos a pessoa que somos hoje.

Igual ao beija-flor.

Que voa para trás para conseguir seguir para frente.




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