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  • Dora Ghelman

Momentos




Um dia desses, estava sentada na minha mesa trabalhando e comecei a escutar o vizinho cantar.

Um canto meio de ópera.

Que podia soar como um deboche, sabe?

Mas não era.

Era um canto de ópera mesmo.

Não era especialmente bom, mas não era de todo mal.

O menino até que era afinado.

Na mesma hora, mandei mensagem para uma amiga comentando sobre o menino cantor de ópera, pois sabia que ela acharia engraçado.

E não deu outra.

Perdemos muito tempo tentando imaginar quem era o menino.

Por que ele estaria cantando ópera.

Para quem.

Será que era um jovem de coração partido que estava cantando para tentar diminuir a sua dor?

Ou, então, um jovem audacioso que canta perto da janela na esperança de uma bela moça escutar, e se interessar pela misteriosa voz da janela e se apaixonar perdidamente por ele?

Ou, então, a voz é de um amor que já se foi, deixando uma gravação do seu canto para quem ficou escutar quando a saudade apertar?

Ou é um boneco inflável versão ópera, que realiza os mais loucos fetiches?

Ou um menino que está praticando o seu canto para uma audição na principal orquestra do Rio de Janeiro?

(Devo sentir vergonha por não conhecer orquestras do Rio? ***nota mental para pesquisar e estudar orquestras brasileiras no geral)

As ideias foram muitas.

Pensar sobre as inúmeras possibilidades e realidades alternativas sobre o cantor de ópera me fez lembrar do homem que ficava parado na frente do posto de gasolina.

Aquele que eu via todo dia quando passava para ir para casa.

E que todos os dias estava na mesma posição, no mesmo lugar, parado, olhando para frente, segurando uma garrafa d’água.

Como se fosse uma performance.

Aquele homem que eu escrevi sobre me mudar, e nunca mais pensar sobre.

Será que o cantor de ópera seria assim?

Será que eu nunca mais pensaria nele?

Será que ele não teve importância o suficiente para deixar uma marca um pouco mais permanente na minha memória?

Agora que minha mudança está acontecendo de novo, vou me esquecer dele?

Vou me esquecer do homem do posto de novo?

Será que existem mais pessoas que esqueci ao longo do tempo que morei aqui e que nunca mais vou me lembrar?

Agora já era, né?

Observar o entorno, quem está em volta, vizinhos etc., sempre foi algo que eu amei fazer.

Será que na casa nova vou ter vizinhos interessantes?

Sempre têm.

Mas será que esses vizinhos vão me entreter o suficiente a ponto de firmarem espaço permanente na minha memória?

Tipo o cantor de ópera?

Não sei ainda se ele firmou um lugar permanente.

Se em dez anos eu voltar a falar dele, saberemos a resposta.

Mas enfim, será que vou ter o entretenimento de vidas alheias?

Eu já sei que a obra em frente colocou uma imagem de Santo na parede da varanda.

Uma imagem bem grande mesmo.

Acho que esses vizinhos podem ter um potencial interessante, né?

A vizinha da diagonal sempre tem um homem diferente na varanda bebendo cerveja.

Acho isso incrivelmente incrível.

Vai me render bons momentos.

E espero que boas fofocas.

Mudanças nunca são simples.

Nem fáceis.

Mas acho que estou bem servida de entretenimento.

Pode ser que nunca mais escute o menino cantor de ópera.

Pode ser que nunca mais lembre dele.

Pode ser que lembre.

O importante é que novas memórias estão por vir.

Novos momentos.

Novos “sentires”.

Novas experiencias.

E eu me sinto pronta.



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