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  • Dora Ghelman

Arraial do Cabo




É impossível pensar na minha infância e não pensar em Arraial do Cabo.

Pensei em Arraial porque normalmente essa seria a época de Arraial.

Verão.

Férias.

Calor infernal.

Pensei em como seria estar lá agora.

Pensei em como era ficar lá durante quase dois meses seguidos.

Na alegria que crescia desde o momento de entrar no carro para começar a viagem.

Os milhões de “pai, tá chegando?” que eram sempre respondidos com “só mais um pouquinho”, independentemente de onde a gente estivesse na estrada.

A placa de entrada de São Pedro da Aldeia que necessariamente era acompanhada pelo aviso de que finalmente estávamos em “São Peido”.

A reta entre Cabo Frio e Arraial do Cabo, sempre ilustrada por dunas dançantes e contrastes de sol.

A subida do Pontal do Atalaia, o desligar do ar condicionado e o abaixar das janelas, todos prontos para finalmente sentir o cheiro de Arraial.

O cheiro de mar. De areia. De praia. De vida. De história. De infância. De família.

Coisa que até hoje repito quase que ritualisticamente.

A entrada do condomínio.

A recepção da família que já havia chegado no dia anterior, ou na semana anterior.

A criançada que todo ano estava lá, prontos para brincar de pega-pega, queimado, artilheirinho e fôlego na piscina.

O café da manhã especial que só Arraial proporciona.

A sanduicheira velha que faz aquele queijo quente com um gosto característico que ninguém abre mão, nem dieta.

A ida para a praia.

O auê para trocar de roupa, colocar biquíni, a fila para colocar protetor solar de frente para o espelho para garantir que nenhum pedaço de pele ficasse desprotegido.

O bugre do vovô parado na frente do poste do condomínio esperando quem ficasse pronto primeiro para ir para a praia.

A briga para quem iria sentar na parte de trás do bugre.

A descida da praia.

A escadaria.

A areia branca branca branca feito neve.

O mar azul azul azul feito o céu.

A praia vazia vazia vazia, coisa que hoje em dia seria completamente impossível.

Mas a gente viveu.

A gente viu.

A gente presenciou.

Foram muitos anos de praia deserta.

Muitos verões de imensidão branca misturada com água azul cristalina, só para nós.

Um paraíso particular.

Um segredo que só a família compartilhava.

As corridas de “skip” pela areia.

Os inúmeros castelos, buracos, torres, muralhas.

As idas infinitas para o “fundão”, com bóia redonda, colchão inflável, nadando de frente, de costas, de peito.

As competições de quem pegava mais areia do fundo do mar mergulhando de uma vez só.

Comer mexilhão recém pescado de um baldinho na beira do mar.

Ir seguindo o sol conforme ele ia se pondo atrás da montanha.

A coordenação e organização das subidas para tomar banho no chuveirão – argumentadas e contra-argumentadas para podermos descolar mais tempo de praia.

Aquele almoço de peixe e frutos do mar tarde do dia.

O pôr-do-sol no boqueirão, todos deitados enfileirados na nossa pedra de sempre.

Noites e noites brincando na quadra, jogos nas varandas, lanches nas casas.

E os dias se repetiam. Todos os dias. O verão todo. Todos os verões.

E como a gente amava.

E como a gente ama.

Dias que guardam imagens de amor e alegria no coração e na mente de todos nós.


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