• Dora Ghelman

Uma carta para a Dora do passado




Oi, Dora.

Tudo bem?

Como você tá?

Sei o que você está sentido.

Sei que tá complicado.

Muitos sentimentos novos, né?

O cabelo tá ficando esquisito...

Tá ficando muito volumoso, diferente do cabelo das suas amigas.

Sei que está te incomodando.

Por isso que você fica usando ele preso o tempo todo.

Dá menos trabalho.

Eu sei.

Você tá usando aparelho, óculos, tá ganhando um pouco mais de peso...

Isso tá deixando a sua cabeça muito confusa.

Você tá se sentindo inadequada.

Está se sentindo estranha.

Está se sentindo esquisita.

Está se sentindo feia.

Está se sentindo bastante insegura.

Isso sem contar que o seu corpo está passando por mudanças naturais do amadurecimento.

Mas olha, não precisa se angustiar.

As coisas vão melhorando aos pouquinhos.

Rapidinho você vai tirar esse aparelho fixo.

Esse peso que você ganhou, não é real.

Essa barriga que você acha que você tem, é barriguinha de criança.

Porque, Dora, você ainda é uma criança.

Você não precisa entrar de dieta.

Você não precisa emagrecer.

Você não precisa ter vergonha de se olhar no espelho.

Não precisa sair do ballet porque você está com vergonha de usar o collant.

Você fica linda demais vestida de bailarina.

E quando você dança, você se ilumina.

Você ama o palco, você ama se apresentar.

Você ama os espetáculos de final de ano.

Por favor, não desiste.

Essa pressão que você está colocando em você mesma não tem necessidade.

Se abraça, Dora.

Se dá mais amor.

Se trate com mais carinho.

Sobre o cabelo... se você cuidar dele com um pouco mais de calma e amor, ele fica mais tranquilo rapidinho.

Acho que são os hormônios que estão deixando ele mais “rebelde”.

Mas de qualquer forma, rapidinho ele se ajeita.

Eu prometo.

Não precisa alisar, tá?

Me promete?

Não cai no conto do alisamento.

Você me jura? Juradinho?

Não entra no culto da escova progressiva.

Se você fizer, vai ficar feliz por algum tempo.

Vai se sentir bem com você mesma.

Vai sentir que faz parte, que se encaixa.

Vai se sentir bonita.

Mas com o tempo você vai começar a sentir um peso enorme.

Um peso e uma pressão muito grandes.

Pra manter essa aparência que você mesma criou.

Você vai se ver numa prisão.

Você vai acabar se perdendo de você mesma.

Vai se perder da sua essência.

E vai desaparecer dentro de uma máscara.

Do que você acha que é bonito.

Do que você acha que se encaixa.

E, no meio do caminho, você vai acabar não se reconhecendo mais.

Sei que isso é muito mais complexo do que só um alisamento de cabelo.

Ou do que uma dieta.

Estou me aprofundando muito e acho que você não deve estar entendendo nada do que estou falando.

Então vamos focar no simples por enquanto.

Quando você for mais velha a gente conversa sobre esses desdobramentos todos.

Dora, seja você mesma.

Acho que é isso que estou querendo dizer desde o início.

Seja você.

Seja a menina que gosta de dançar.

Que fala pelos cotovelos sem vergonha alguma do que os outros vão pensar.

Que brinca sem parar e sem se importar se está descabelada, suada, com a calcinha aparecendo e com os pés sujos.

Seja a menina que tem sempre os joelhos ralados porque não consegue parar de brincar.

A menina que inventa desculpa esfarrapada pra não voltar pra casa pra tomar banho antes do jantar, pra continuar brincando na rua.

Não perca isso, Dora.

Não tenha vergonha de ser você.

Não se feche pro mundo.

Não se feche pros outros.

Não mude quem você é por ninguém.

Não mude quem você é pra se encaixar em algum lugar.

Deixe que os outros se encaixem a quem você é.

Porque você é uma menina alegre, Dora.

Uma menina que ri.

Uma menina que dança em vez de andar.

E canta em vez de falar.

Seja essa menina.

Eu sou muito orgulhosa de quem você é.

De quem nós somos.

Nós somos muito legais.

Mesmo.

Quero pra sempre ser sua amiga.

Confia em mim.

Vai ficar tudo bem.

Vamos juntas!

Com amor,

Dora



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