• Dora Ghelman

Coragem não é na ausência do medo: é um ato de autoamor

Me considero escritora de mim mesma.

Uso isso aqui como um diário público.

Saio escrevendo o que sinto e o que penso sobre os mais variados assuntos.

Como se estivesse escancarando o meu cérebro para quem quiser ler.

Ou para ninguém em particular.

Só de colocar para fora da cachola já é bom demais.

Escrevo com o coração, já me falaram.

E eu concordo.

Já me falaram também que tenho um fluxo de pensamento intenso.

Minha cabeça não para de pensar nem por um segundo.

Ok, a cabeça de ninguém para de pensar.

Mas o que quis dizer é que minha cabeça não para de produzir.

É uma constante produção de linhas e linhas de coisas para falar.

Como não dá para falar tudo, escrevo.

Sobre tudo.

Me ajuda a organizar esse fluxo intenso de pensamentos.

Desde sempre foi assim.

Quando era pequena e brigava com a minha mãe, - o que acontecia com uma certa frequência, afinal, duas mulheres com personalidades fortes convivendo e com muita coisa para aprender uma com a outra - eu não conseguia verbalizar meus sentimentos.

As palavras não conseguiam se organizar numa linha reta para chegar até a boca.

Eu precisava escrever.

Organizava o que estava sentindo em uma cartinha, finalizando com um pedido de desculpas, e empurrava por debaixo da porta do quarto.

E é assim até hoje.

Não que eu continue fazendo cartinhas e pedidos de desculpa para arrastar por debaixo da porta.

Os pedidos de desculpa eventualmente ainda acontecem.

Estamos aqui para aprender e, principalmente, aprender com os nossos erros.

Mas não arrasto mais por debaixo da porta.

Sigo precisando da escrita para organizar os pensamentos e entender o que estou sentindo.

Venho de uma família de escritores.

Meu avô, minha avó, minha mãe, meu pai, minha tia, meu tio, minha prima.

Todos fazem uso da palavra como ofício.

Nunca me achei digna de me sentar ao lado deles.

Sempre achei que minhas escritas não valiam a pena a leitura. Eram só para o meu deleite pessoal - ou não.

Afinal, isso aqui é só um diário.

Um desabafo público.

Um vômito verborrágico.

Mas olha, se me ajuda, quem sabe alguém se identifica e possa ser ajudado também?

Um dia me pediram para colocar um cronômetro de 10 minutos e escrever sobre qual lugar a escrita ocupa na minha vida.

Fiquei 9 minutos parada, olhando para o computador.

Fiquei pensando sobre todos os livros de romance adolescente que li e sobre como eles me fizeram sonhar em um dia encontrar um amor.

Pensei nos livros de magia, que me transportaram por anos e anos - e ainda transportam - para um mundo completamente novo.

O sonho de um dia receber a carta me convidando para estudar na Escola de Magia e Bruxaria ainda é latente, sem dúvida alguma.

Nos livros de futuros distópicos que me fizeram me perder no terror da realidade literária, e sonhar junto com os personagens por dias melhores.

E nos romances dos séculos passados. Nossa. Esses romances me fizeram perder o chão. Me fizeram perder todas as estruturas.

Como eu amo essas paixões inebriantes rodeadas por bailes, salões de festa, vestidos, corpetes, cortejos, toques leves nas mãos escondidos para ninguém ver, beijos escondidos, sexos escondidos, duelos, corridas de cavalo, óperas…

Pensei nos livros de autoficção e todas as autodescobertas e conquistas pessoais das personagens. Em como elas cresceram ao longo das páginas e como elas me fizeram crescer e amadurecer junto com elas.

Me perdi em todos os livros já lidos e em como eles me fizeram sentir.

Pensei em como eu mudei a cada nova página, a cada novo capitulo, a cada novo livro.

E é isso.

Esse é o lugar da escrita da minha vida.

Lugar de companhia, de viagem, de amor, de paixão, questionamento, crescimento, amadurecimento, sentimento… São tantos lugares que a escrita ocupa.

Fiquei 9 minutos parada, olhando para o computador.

Por quê?

Por que não consegui responder a uma simples pergunta? Porque ela é simples.

Então pensei no meu medo de fracasso e em como isso ocupa tanto, mas tanto, mas tanto espaço dentro de mim que não deixa o resto se espalhar aqui por dentro.

Fico tanto tempo com medo e me sabotando, que esqueço do que a escrita me traz.

Acho que as proporções internas desses sentimentos estão erradas, né?

Deveria ser o contrário.

Eu deveria pensar diariamente em tudo isso que falei aqui. No lugar que a escrita ocupa na minha vida de forma positiva.

E tentar esquecer e não dar tanta importância para a parte ruim.

A parte do medo.

Da sabotagem.

Do fracasso.

Da pressão interna.

Do “travamento” que isso tudo me causa.

Era para ser uma pergunta simples.

Mas acho que a escrita nunca vai ser simples… Né?

Ontem fiquei horas olhando uma caixa cheia de bilhetes antigos que guardei ao longo de todos esses anos de vida.

Guardei absolutamente tudo.

Até embalagem de garrafa d’água dá para achar ali dentro.

Me deparei com uma cartinha dos meus pais pro meu aniversário de 10 anos.

Na carta dizia assim: “nunca deixe de lado essa sua luz expansiva”.

Essa frase me deixou pensativa por um tempo.

Eu era aquela criança mega extrovertida.

Meus pais tinham que implorar pra eu voltar para casa pra jantar.

Vivia brincando na rua do condomínio.

Era aquela criança sem filtro, que falava absolutamente qualquer coisa que vinha na cabeça, sabem?

Era livre.

Aos poucos fui me voltando para dentro. Fui ficando envergonhada.

O medo foi tomando conta.

Medo de ser julgada. Medo de falar alguma coisa errada, de não ser aceita, de não me encaixar.

Aquela menina que não tinha filtro na hora de falar se viu tendo um ataque de pânico na hora de apresentar pitching de um roteiro que escreveu.

Não apresentou. Não queria ser julgada por algo que tinha escrito.

Minha luz expansiva foi se perdendo ao longo do caminho.

Um dia desses eu não dormi direito.

Estava ventando demais e as árvores faziam muito barulho por aqui.

A Mia ficou com medo e chorou a noite toda.

Na manhã seguinte ela não comeu.

Toda vez que se aproximava do pote de comida, o cano que sai do gás fazia um barulho razoavelmente alto por conta do vento. Isso me fez pensar sobre o medo e em como ele nos paralisa.

Ela, com fome, não comeu. Por medo.

Fiz uma auto análise rápida e fiquei feliz com o quanto já caminhei de volta.

Fiquei satisfeita com o quanto da menina livre está presente aqui dentro.

E agradeci a ela por tudo, principalmente pela paciência por ter me esperado voltar. Vi em um filme um dia desses alguém dizendo algo assim: “Fulana se acende com o medo. É como se ela se alimentasse dele.”

Não lembro onde ouvi isso. São muitos filmes por semana pra registrar esses detalhes.

Mas é sobre isso.

Hoje digo: “Oi, sou Dora. Tenho medo, mas vou mesmo assim”.




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