• Dora Ghelman

Bye Bye, World



Hoje o mundo acaba.

Mas não vou me desesperar.

Vou fazer tudo aquilo que sempre quis fazer, mas nunca tive coragem.

Nem oportunidade.

Acordei sem despertador.

Tomei café da manhã no estilo Manoel Carlos.

Botei uma roupa colorida e confortável.

Fui caminhar no parque.

Parei para beber um coco gelado.

Tirei umas fotos.

Li um capítulo de um livro.

Deitei no banco e fiquei olhando direto pro sol.

Fiquei sem enxergar por uns minutos.

Brinquei no balanço.

Algumas crianças me olharam com cara feia, mas não liguei.

Hoje, o mundo acaba.

Liguei para a minha família.

Falei sobre como os amo.

Disse que tinha deixado o som alto ligado na janela pro vizinho chato ficar escutando o dia inteiro.

Meu pai riu.

Mandei um “Alô” no grupo das amigas.

Disse que sentia falta de ficar sentada no chão da sala falando besteiras a noite toda.

Fui dar um mergulho de cachoeira.

Engraçado que eu sempre amei cachoeiras, mas quase não vou.

Será que eu amo mesmo?

Não sei.

Fiquei um tempo debaixo da queda recebendo aquela massagem natural.

Voltei andando pela trilha calmamente.

Olhei pro topo das árvores imaginando se havia algum macaco me olhando de volta.

Seria legal se ele estivesse pensando em mim assim como eu estou pensando nele.

Almocei no café que eu gosto.

Fiquei olhando as pessoas passarem.

Eu gosto de ficar imaginando pra onde elas estão indo.

De onde elas vêm.

Com quem elas estão falando.

Mistura de fofoqueira e curiosa.

Ia voltar pra casa, mas decidi pegar um ônibus pra dar um mergulho na praia.

Eu nunca ando de ônibus.

E nunca vou à praia.

Pisei na areia e queimei meus pés.

Sai correndo enquanto tirava as roupas.

Elas foram ficando pelo caminho.

Não me importei.

Mergulhei fundo.

Boiei por um tempo.

Pensei se valia a pena fingir afogamento pra ser resgatada naquele helicóptero com tipo rede de pesca, sabe?

Mas fiquei com preguiça.

Muito esforço e zero garantias de resgate de helicóptero.

Voltei pra casa observando os carros.

Deitei na rede para ver o sol se pôr enquanto bebia um chá.

Tomei um banho quente demorado.

Daqueles que você imagina todas as energias pesadas saindo pelo ralo.

Pedi um japonês gostoso.

Daqueles caros que vem com aquelas esculturas mirabolantes de comida.

Eu mereço.

Nunca peço essas comidas chiques.

Assisti um filme que sempre quis ver, mas nunca tive tempo.

Daqueles que estão naquela lista infinita de “filmes para assistir” que você guarda no bloco de notas do celular, e que nunca assiste nenhum.

A lista só vai aumentando.

Li mais um pouco antes de dormir.

Coloquei o ar condicionado no mínimo.

Sempre.

Impossível dormir de outra forma.

Me enrolei feito um burrito no cobertor.

Dormi pesado.

Sonhei com a cachoeira.

E com macacos.

Esse lance de me imaginar tendo um momento de troca de olhares com eles me pegou, eu acho.

Acordei com o alarme às 7h.

Estava na hora do mundo acabar.

Tomei banho.

Me maquiei pra ficar bonitona.

Botei minha melhor roupa.

Passei um café para tomar no caminho.

Acho chique isso de tomar café no caminho.

Na garrafa térmica.

Me passa um ar de importância.

Peguei minhas malas.

Me despedi do meu apartamento e fechei as portas.

Deixei as chaves na portaria.

Dei tchau pro porteiro.

Acho ele uma simpatia.

Entrei no taxi com o destino: sem volta.

Enquanto observava o Rio de Janeiro passar pelos meus olhos, chorei.

De saudade.

De vontade.

De ansiedade.

De medo.

Medo do novo.

Medo do desconhecido.

Cheguei no aeroporto.

“Deu 53, senhora”.

“Aqui, pode ficar com o troco.”

Meu mundo acabou.

Um novo está começando.

Em outro lugar.

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