• Dora Ghelman

As Desvantagens de ser invisível


Uma noite dessas, estava assistindo a uma série documental em que o enredo é trazer uma turma de teatro de volta pra escola em que estudaram quando eram pequenos.

A ideia é remontar um musical que eles fizeram na época em que estudavam lá.

Para quem gosta de musicais e reality shows, é uma série bem agradável.

Foge daquele padrão de reality em que brigas e “dedos na cara” ganham mais espaço do que qualquer outra coisa.

É um programa sobre volta para casa e como a escola e os amigos de infância são importantes para a nossa formação.

Uma série saudosista, sabe?

E se você gosta de musicais então: bilhete premiado.

Me deixou bastante impressionada que em todos os episódios tem pelo menos uma pessoa que se sente minimamente desconfortável em voltar pra lá.

Seja porque se sentia excluída na época da escola, se sentia deslocada, não estava em um bom momento ou não tinha muitos amigos naqueles tempos.

Mas quase todos eles encontravam no teatro uma fuga dessa realidade e encontravam naquele grupo específico de pessoas um sentimento de pertencimento.

Depois de anos separados e longe do teatro, eles se reconectavam com esses sentimentos e isso é muito lindo de assistir.

Em um episódio em especial, aconteceu algo que me tocou de uma forma diferente.

Era uma turma que fez uma montagem de Grease em 1990 em Nova Jersey.

Um dos alunos nunca se sentiu acolhido na época da escola, durante a montagem.

Era excluído, não tinha muitos amigos.

Negro, gay, gostava de moda, cuidava dos figurinos.

Na montagem de Grease, ele fazia parte do coro, não tinha um personagem específico.

Ele não era feliz na escola e sonhava todos os dias com a formatura.

Como se a solução de todos os seus problemas estivesse do lado de fora.

Longe dali.

Se formou e foi morar na Alemanha.

Longe mesmo, né?

Quando volta, ele chega na escola com uma atitude.

Digo, ATITUDE.

Fazendo questão de dizer por onde andou, o que faz, com quem andou.

Querendo provar que é melhor do que todos ali.

Em determinado momento, uma das ex-alunas, em uma roda de conversa, começa a falar com ele.

Ela diz que é professora e que em todo começo de ano letivo conta pros seus alunos a mesma história.

A história de quando eles estavam em um ensaio, e o diretor disse que a pessoa que conseguisse levantar o braço mais alto ganharia determinada coisa.

Não sei dizer o qual era o prêmio.

Não sei se ela não lembrava ao contar essa história, ou se eu não lembro depois de assistir.

Enfim, o prêmio não era importante para a história que ela estava contando.

Seguindo…

Todas as crianças imediatamente levantaram seus braços o mais alto que conseguiam.

Quando ela olhou pra ele, ele estava subindo em cima de uma mesa e levantando o braço.

Ela concluiu dizendo que usava essa história como exemplo para os seus alunos.

Exemplo para a gente sempre pensar fora da caixa na hora de lutar pelos nossos objetivos.

Para a gente nunca desistir.

E nunca pensarmos dentro dos padrões.

Nessa hora, o cara se desabou a chorar.

Ele disse que não sabia que havia gente prestando atenção nele.

Não sabia que era visto na época de escola.

Ele achava que tudo que ele fazia era invisível e sem importância.

Achava que não tinha ninguém olhando.

Isso me quebrou.

Pausei o episódio por alguns minutos.

Fiquei sem reação.

E sem entender direito porque essa cena me pegou tanto.

Fiquei pensando por um tempo.

Quando somos crianças ou adolescentes achamos que temos que nos diminuir para nos encaixar em determinados padrões.

Encaixar para nos blindarmos do sofrimento de sermos diferentes.

O menino se diminuía então? Para se encaixar?

Assim como todos nós fizemos e fazemos?

Não.

Não é sobre isso.

É além.

É sobre não se sentir visto.

Sobre ser invisível.

Gente, isso é muito duro.

Eu não consigo imaginar.

Vai além do se diminuir para se encaixar.

É sobre nem se sentir digno para existir.

Sobre se sentir tão sem importância que não faz mais sentido tentar se encaixar.

Criar máscaras.

Não faz diferença.

Não tem ninguém olhando, certo?

Não.

Não está certo.

Fiquei pensando sobre a moral que essa cena poderia trazer.

E entendi.

Fiquem tranquilos, amigos.

Quando vocês se sentirem invisíveis, acreditem.

Tem alguém olhando.

É só saber onde procurar.

Talvez se esse cara, na época de escola, tivesse percebido que a outra aluna o estava observando, sua vida tivesse sido diferente.

Talvez ele não tivesse ido pra Alemanha.

Talvez ele não tivesse constantemente essa sensação de que precisa provar que é melhor, que é bom.

Ah, a vida…

Não estamos sozinhos.

Eu entendi a questão do menino da série.

Mas ainda não havia entendido porque aquilo havia me arrebatado de tal forma.

Fiquei boladona.

Eu me sinto invisível?

Eu me sinto o suficiente?

Será que eu sou o suficiente?

Eu me acho importante?

Me acho válida?

Ou será que me escondo embaixo de máscaras?

Para essa última eu já tenho a resposta.

Sim, eu me escondo embaixo de muitas máscaras para ser aceita.

Ou me escondia, não sei.

Cabelo, corpo, o que falar, o que não falar… O importante era se encaixar.

É se encaixar.

Ainda?

Mas isso, acho que vale um texto por si só.

Fiquei pensando em como o filme “Soul” da Pixar havia me deixado da mesma forma.

É a história de um músico que ainda não teve a sua grande chance e segue na luta para se tornar bem-sucedido.

No mesmo dia em que ele recebe uma proposta de emprego fixo, com salário integral e todos os direitos, ele também recebe a proposta dos seus sonhos: tocar em um clube de jazz com uma grande artista.

E de repente ele morre.

Antes de poder realizar o seu maior sonho: se tornar um músico profissional.

Quando ele se vê indo em “direção à luz”, tenta fugir e voltar para o seu corpo físico para conseguir realizar o seu sonho.

Mas ele acaba caindo no que o filme chama de “pré-vida”.

Um lugar onde todas as almas jovens estão antes de irem para a Terra.

É lá que as almas jovens ganham as suas personalidades.

Onde descobrem os seus interesses.

Onde entendem qual é o propósito delas.

Propósito de alma.

Ele acaba se deparando com uma jovem alma que nunca conseguiu encontrar o seu propósito.

Então nunca conseguiu ir para a Terra.

O personagem acaba se tornando o tutor dessa jovem alma.

Eles se juntam para alcançar os seus objetivos pessoais.

Ele quer voltar para o seu corpo, e a jovem alma quer descobrir o seu propósito.

Enfim, é um lindo filme e não vou contar ele todo aqui.

Assistam.

Vale a pena.

O que interessa para esse texto é que em determinado momento do filme, o personagem se vê em uma espécie de museu da sua própria vida.

E nesse museu, ele vê todos os seus feitos, o que era importante para ele em vida.

O que ele conseguiu atingir.

E o museu estava vazio.

Não havia quase nada.

Ele focou tanto no seu objetivo de ser músico que não havia nada mais de importante de vida dele.

Isso me deixou muito mal.

Será que se eu morresse hoje, teria um museu cheio?

Ou seria igual ao dele?

Quais foram os meus feitos nessa vida?

Eu cumpri meus objetivos?

Qual é o meu propósito?

(Se você não assistiu o filme talvez tenha um ou outro spoiler a seguir.

Na verdade, já tiveram alguns, né?

Perdão.)

A moral do filme é que todos temos um propósito, mas que não adianta só focar nele e esquecer do resto.

Porque era isso que o personagem do filme fazia.

Para ele, só importava a música.

Só importava seu sonho de ser um músico profissional.

Mas e o resto?

A mãe? Família? Amor? Amigos?

Nada importava.

E o filme te mostra o contrário: os pequenos prazeres da vida importam.

Eles que fazem você chegar no seu propósito.

Quando o filme acabou, fiquei sem me mexer por um bom tempo.

Eu não sabia qual era o meu propósito.

Não sabia qual era a minha missão.

Quais eram os meus objetivos.

Eu aproveito as pequenas coisas da vida?

Não sei.

Eu acho que sim.

Mas será isso o suficiente?

Será que isso que faço diariamente é o suficiente para deixar o meu museu do pós-vida mais alegre e cheio do que o do cara do “Soul”?

Não sei.

E isso me deixou paralisada.

O fato de eu ter assistido ao filme no auge da pandemia, onde de fato ninguém estava fazendo nada, pode ter contribuído para a pequena crise existencial que se estabeleceu.

Mas de qualquer forma, a crise estava ali.

E as preocupações eram reais.

Assim como as preocupações que surgiram após o episódio do reality show.

Tanto aquelas como essas são preocupações sobre mim e em como eu me encaixo no mundo.

Uma de uma forma mais “superficial”, no sentido de que diz respeito a imagem que os outros tem de mim.

Em como os outros me enxergam e em como eu me mostro para o mundo.

Sobre ser vista.

E essas dizem respeito a algo mais profundo.

Sobre o meu lugar no mundo.

Missão de alma.

De vida.

Eita, como eu sou profunda.

Quantos questionamentos, né?

Acho legal analisar como as coisas batem em mim.

O efeito que elas causam e o que elas trazem de questionamentos sobre mim mesma.

Eu ainda não sei a resposta de algumas dessas perguntas.

Algumas eu já consegui descobrir.

Não sei se compartilho aqui, para ser sincera.

Porque acho que são questionamentos que não existem respostas certas.

E cada pessoa sente de um jeito.

Enxerga de um jeito.

Analisa as coisas e se analisa de um jeito.

O importante é se deixar sentir.

Essa é a mensagem que gostaria de deixar.

Se deixem sentir.

Se deixem arrebatar.

Se deixem se impressionar.

Se questionem.

Acho que essa fluidez de pensamento e de sentimentos são o que nos fazem crescer.

Mas não se deixem levar por eles a ponto de não conseguirem focar em mais nada.

Acho que saber sentir, saber refletir, saber aprender e saber seguir, são o que nos fazem viver o agora.

Viver um dia depois do outro.

Nos fazem aproveitar tudo o que a vida tem para nos oferecer.

Os pequenos prazeres da vida.

Viver nossa missão.

Seguir em direção ao nosso propósito.

De vida e de alma.

Sem se sentir diminuído.

Sem se sentir invisível.

Sem máscaras.

Sendo você.

E tudo o que ser você envolve.


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